sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Eles queimaram livros

No outono de 1942, a Biblioteca Pública de Nova Iorque organizaria uma exposição dos livros proibidos e queimados na Alemanha. Patrocinada por Eleanor D. Roosevelt, Albert Einstein e mais personalidades políticas, escritores, cientistas e professores, a mostra foi inaugurada com discursos e protestos de repúdio ao auto-de-fé. Autores ingleses e americanos, cujas obras tinham sido proibidas pelos nazistas, deram seu testemunho. Sucedem-se exposições, reuniões, conferências e debates, sempre em torno da fúria incendiária do Terceiro Reich. Bandeiras a meio pau divulgam o luto das bibliotecas e das escolas do país; numa emissão especial, a cargo de Stephen Vincent Benet, a NBC chama a atenção do país para o crime nefando: They burned the books - Eles queimaram livros. Para registro ad perpetuam rei memoriam, editou-se uma brochura, para distribuição nas escolas, sob o título Ten years ago the nazis lighted the way of their own destruction - Há dez anos os nazistas iluminaram o caminho de sua própria destruição.
Mas a comemoração não estaria completa se não se ouvisse a voz do campeão da liberdade - o presidente dos Estados Unidos. Ao falar sobre a data abominável - 10 de maio de 1933 - Roosevelt declara:

"Sabemos todos que os livros se queimam. Mas sabemos ainda mais que os livros não podem ser destruídos pelo fogo. Os homens morrem mas os livros não morrem nunca. Nenhum homem e nenhuma violência podem extinguir a sua lembrança. Nenhum homem e nenhuma violência podem encerrar o pensamento, para sempre, num campo de concentração. Nenhum homem e nenhuma violência podem expulsar do mundo os livros que exprimem o eterno combate da humanidade contra a tirania. Nós sabemos que, nessa guerra, os livros são armas".

QUEIROZ, Maria José de. Os males da ausência ou A literatura do exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. p. 597.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

No fim do caminho estava Vila Rica

Nossa existência parecia em suspenso. O medo da virada do século não voltara a preocupar minha mãe. As angústias do regresso, intensas no início da viagem, já me haviam abandonado. O movimento da cavalgadura, a presença de gente estranha, a mudança de paisagem, a constante e sucessiva diferença de clima - tudo isso me descansava, fazendo-me esquecer que no fim do caminho estava Vila Rica. Nunca fui tão livre: livre do meu tempo, dos meus pensamentos e das minhas emoções. Abrasada às vezes de calor durante o dia, gelada de frio durante a noite, pouco me importavam as fadigas físicas. Fui quase feliz. Mais que isso: fui feliz.

QUEIROZ, Maria José. Joaquina, filha do Tiradentes. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. p. 124.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O prazer de comer e o prazer da mesa

O prazer de comer é a sensação atual e direta de uma necessidade que se satisfaz enquanto que o prazer da mesa é a sensação refletida que nasce das diversas circunstâncias de fatos, lugares, coisas de personagens que acompanham  a refeição. O prazer de comer nos é comum com os animais; depende da fome e daquilo que é necessário para satisfazê-la. O prazer da mesa é particular à espécie humana; supõe cuidados prévios na preparação da refeição, na escolha do local e na reunião dos convivas. Enquanto o prazer de comer  exige, senão a fome, pelo menos o apetite, o prazer da mesa é, no mais das vezes, independente tanto de um quanto de outro.

QUEIROZ, Maria José de. A comida e a cozinha: iniciação à arte de comer. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1988. p. 103

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Por uma carta gastronômica do continente

Esperamos que o bom exemplo de Luís da Câmara Cascudo, ao publicar a História da alimentação no Brasil; de Silva Mello, a Alimentação no Brasil; de Eduardo Frieiro, ao redigir o seu Feijão, angu e couve; de Guilherme Figueiredo, com o seu Comidas, meu santo!, e de Antônio Houaiss, a Magia da cozinha brasileira, frutifique nesta e em outras Américas para que se possa elaborar a Carta Gastronômica do continente. Pois é de supor-se que essa carta fornecerá revelações tão valiosas e tanto mais esclarecedoras sobre os fenômenos culturais americanos quanto a Carta Alcoólica reclamada por Germán Arciniegas. A atender aos dois reclamos, veríamos, bem delineados nas zonas açucareiras, os países da aguardente - o ron e a cachaça -, e, nos países do milho, a ocorrência simultânea da chicha e da tortilla. A presença do mescal e da tequila haveria de colorir o mapa do México, concorrendo com os pratos "ao chocolate", como, por exemplo, o mole poblano. A "branquinha" delimitaria as fronteiras do Brasil, onde pontifica a feijoada negra. O "amargo" - o mate - poria em perigo a hegemonia da vinha nas regiões do Sul, competindo nas grandes carneadas, prolongando o prazer do churrasco e da parrillada. Quando chegarmos a essa perfeição cartográfica, teremos também realizado o propósito estruturalista de Lévy-Strauss escrevendo a história americana dos hábitos à mesa.

QUEIROZ, Maria José de. A América sem nome. Rio de Janeiro: Agir, 1997. p. 34.

sábado, 30 de novembro de 2013

Pentecostes

Tempo de amor
- terceira margem do rio,
tumba e cal de memórias
ancorados -
denuncio.
À doce ilusão
de afeto breve
renuncio.
Em alegre Pentecostes
de liberdade recuperada
anuncio:
os olhos tenho vendados
a Eros e seu prestígio.

Núncio nuncial
incipial
de alma liberada:
a consciência esclarece e ilumina.

Paris, inverno de 1970.

QUEIROZ, Maria José de. Exercício de gravitação. Coimbra: Atlântida, 1972. p. 66.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Os castigos

Os castigos propiciaram a Victor Hugo não apenas uma purga, uma catarse; ofereceram-lhe a ocasião de falar no seu próprio nome, sem censura, sem falso recato, sem modéstia. Isento de compromissos políticos, imune à pompa acadêmica, alheio à notoriedade pública e à nomeada pessoal, desvinculado da crença religiosa e da fidelidade aos laços conjugais, indiferente à fama, embora atento à glória, a poesia desata-lhe a língua, ratificando o sursis de todos os gravames a que a sociedade, a República, a igreja, a cidadania e as letras o sujeitavam. Estava livre. De direito e de fato. Para berrar, vociferar e fazer ouvir, nos quatro cantos da terra, o seu clamor oceânico. Não há quem o detenha nem quem o faça calar. Não há nobreza de gênero que o impeça de versar esse ou aquele tema. Invade a literatura, banqueteia-se com todos os gêneros, passa como um vendaval pelo dicionário e depois de inquietar os donos do poder põe em alarme os donos do conhecimento. Não, não era um louco que pensava que fosse Victor Hugo. Aos olhos de Juliette era Deus. E era mesmo: era a poiésis encarnada.

QUEIROZ, Maria José de. Os males da ausência ou A literatura do exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. p. 262-263.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Projetos

Doutorado:

1) História, memória e cotidiano nas narrativas de Maria José de Queiroz - Resumo: Este projeto objetiva estudar as relações entre a História, a Memória e o cotidiano na obra de Maria José de Queiroz, ancoradas nas relações entre historiografia e literatura na construção dos romances contos e novelas, além de procurar as fronteiras que medeiam a História oficial e as histórias ficcionais. Nesse contexto, pretende-se ainda esclarecer de que forma o texto híbrido que daí resulta constitui-se, também, em uma forma de construção do passado e de sua atualização no presente. Doutoranda: Maria Lúcia Barbosa - Orientadora: Profa. Dra. Constância Duarte - Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG - Período: 2014-2018.

Mestrado:

1) As cidades e os mortos: As cidades invisíveis, de Italo Calvino, e Como me contaram: fábulas historiais, de Maria José de Queiroz - Resumo: Este projeto objetiva analisar o caráter duplo do espaço urbano tanto em As cidades invisíveis, de Calvino, quanto em Como me contaram, de Queiroz, tendo em vista a relação entre metrópole e necrópole em ambos os textos. Mestranda: Maria Silvia Duarte Guimarães - Orientadora: Profa. Dra. Lyslei Nascimento - Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG. Período: 2016-2019.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

13 de julho de 1791



QUEIROZ, Maria José de. 13 de julho de 1789. In: ______. Como me contaram: fábulas historiais. Belo Horizonte: Imprensa/Publicações, 1973. p. 79-81.

sábado, 2 de novembro de 2013

É o homem livre que fala do encarcerado

Van Gogh declarava que o pintor não pinta o que vê mas o que sente. Manifestadamente, não se aplicará também a quem escreve o mesmo aforismo? A tomada de consciência a que nos obrigamos, introduzidos no conhecimento de uma realidade sentida, aspira a instruir-nos sobre uma realidade vista. Acautelemo-nos no entanto: não nos esqueçamos do que a prisão significa na sucessão dos episódios vividos pelo prisioneiro. Na projeção do presente sobre o passado (porque geralmente, é o homem livre que fala do encarcerado), cumpre atentar na convergência das suas visões do mundo, presas a dois tempos, que se integram na reflexão histórica em que o autor força o leitor a situar-se na sua história - ida e vivida.


QUEIROZ, Maria José de. A literatura encarcerada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. p. 145. 

domingo, 20 de outubro de 2013

A selva fortalece e consagra amizades

Vinte e três anos de convivência com a floresta, com as cobras, os insetos, as febres, as piranhas e... com a morte. A morte sem disfarce. Quando ataca, ataca sem piedade: de frente. Só o homem, na selva, ataca por trás, de emboscada. Só o homem é hipócrita e mal-intencionado. Dos bichos e das árvores não tenho queixas. Marcaram-me fundo. Mas combatemos combate leal! Hay que temer a los hombres! No entanto quando se tem um amigo... A selva fortalece e consagra as amizades. Ali, sim, é que a fidelidade do amigo se põe à prova. O verniz da civilização não tem razão de ser. Supérfluas nos parecem, e falsas, as fórmulas de polidez, os elogios, os agrados, a solidariedade de fachada. A floresta, testemunha silenciosa, exige atos e não palavras.

QUEIROZ, Maria José de.  Homem de sete partidas. 2. ed.  Rio de Janeiro:  Record,  1999.   p. 86.

sábado, 12 de outubro de 2013

Dorotéia

Noites brancas, sem sossego,
manhã fria de Ouro Preto
Marília, noiva do vento.

O rico vestido bordado,
as liras apaixonadas,
as promessas... o noivo...
Palavras.

Nas ruas, o olhar avesso,
nas rótulas, o vago vozeio,
o riso, a família... Bem feito!

Primeiro a vergonha, o processo,
a dúvida, os versos.
O amor vence tudo,
ainda há esperança...
Dá-se um jeito.
Os dias passando, os meses,
cartas raras, o degredo.
À África? Quem sabe?
Coração maior do que o mundo...
Se amor existe, o mar é pouco...

Dá-se um jeito.
O silêncio.
Silêncio longo de anos,
o casamento, o lar... o dinheiro...
São estes os campos?
Talvez.
Na casa de muitos quartos,
corredores estreitos,
madrugadas prenhes de espantos.
A solidão, fiel conselheira,
desenreda velhos novelos,
corrige passados enganos.
Marília, noiva esquecida,
responde pelo seu nome.
Liras e versos falazes
esquecem-se entre duas fraldas,
no leve embalo do berço
com uma canção de ninar.
São estes os campos?
São estes.
Dorotéia os desencantou.

Belo Horizonte, 1973.


QUEIROZ, Maria José de. Exercício de fiandeira. Coimbra: Coimbra, 1974. p. 35-36.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Paixão inútil

Em vão me distraio
no suor e na pena,
no proveito e no ganho,
no esforço diário
da moenda e do pão.
Reinvento leis e parábolas,
prêmio e castigo,
abono a tristeza legítima
(a única, dizem)
de não ser santo.
Em precipitada fuga
aos minerais negros,
ao sol ávido e à herança de sal,
aspiro à graça mística
do saber de salvação.

Finjo aplicar-me
e... quase me convenço:
mato o  tempo,
mastigo ilusões.
Mas sempre me sobram, sempre,
sonhos rebeldes, insônia,
brancas vigílias de sabores ambíguos,
densos perfumes,
rumores súbitos,
rosas rubras.
O corpo alerta
às numéricas palavras
- datas, meses, anos -
ao que falta, ao que resta,
nefastas lembranças,
frustrações...
Ignoro causas,
desconheço pretextos
e me vejo eleito,
em metáfora de viagem
- acaso, necessidade ou maldição - a concluir vidas
em mim prolongadas
sem remissão.
Faço contas,
demoro-me no cálculo:
dinastias milenares
acumulam-se no esquecimento,
sedimentadas de amor e ódio,
desespero e arrogância.
Pesa-me o fardo
de tão longo itinerário
à margem de ataúdes e vultos
que tangem lentas lembranças.
O destino, claro, importa pouco:
nascimento e morte,
começo e fim igualmente se consomem
no cego fulgor da febre e na ciência do pranto.
Pois a mim, afinal, de que me valem
as profecias delirantes,
a família, a honra, o nome,
as dinastias milenares
e sua carga de olvido e de sangue,
se, no assombro de ser,
inutilmente,
lavro o tempo estéril
e semeio meu  legado de cinza e solidões?

Belo Horizonte, abril, 1975.

QUEIROZ, Maria José de. Para que serve um arco-íris? Belo Horizonte: Imprensa, 1982.
p. 81-82. 


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Quanto maior o sofrimento, maior a glória


Grandes igrejas, velas, candelabros, ornamentação luxuosa, missas caras, eis o que se exige dos indígenas para agradar a taita Dios e fazê-lo esquecer as injúrias. Recompensa? O paraíso. Quanto maiores os sofrimentos, maior a glória celeste. Los bienes espirituales son permanentes. Los sufrimientos y la fe, la fe en la Providencia, abren el camino de la felicidad eterna en el seno del Señor... Aconselha-se resignación y espíritu cristiano. Se não receberem recompensa neste mundo, melhor... A doutrina cristã acena-lhes com a felicidade no outro.


QUEIROZ, Maria José de. Do indianismo ao indigenismo nas letras hispano-americanas. Belo Horizonte: Imprensa da Universidade de Minas Gerais, 1962. p. 143.

domingo, 29 de setembro de 2013

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Amori

Ao meu corpo entregaste
cansaço de muitas paredes,
vozes de muitas salas.

No teu corpo carregavas
choros, soluços e lágrimas,
recalques de triste infância
e mais injustiças e frases
de tempo vivido e gasto.

A máscara do dia-a-dia
já não te  fazia falta:
deixaste-a nos meus ombros
ao descalçar tua honra,
teu passo firme e válido,
tua invencível vaidade.
No meu corpo repousaste
todo o peso da tua alma.

Encenamos tragédia grega
no disfarce bem logrado
da verdadeira persona
que arrancamos à cara.

Na fogueira de Eros
queimamos nossos fantasmas.
Ó busca insaciada
de unidade lábil
- perdida e recuperada!

Sob o signo do amor,
invocamos Thanatos:
morremos e renascemos,
despertamos justificados.

Humilhados e tímidos,
na nudez do fruto provado,
reassumimos no sono
a face do justo,
a inocência do hábito.

Já altivos deparamos (Ora se...),
nos pés alevantados,
o vértice dos bípedes,
sem asas.

Seres pedestres, verticais,
à frente da oração,
e da criação,
repetimos gestos,
prolongamos a vida,
em fuga interminável.

QUEIROZ, Maria José de. Resgate do real: amor e morte. Coimbra: Coimbra, 1978.
p. 32-33.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Geografia final, livro de pedra

"Geografia final, livro de pedra", o Canto Geral ajuda-nos a conhecer o homem em toda a duração do seu inquieto deambular pela terra: "Que era o homem? Em que parte de sua conversa franca / entre os armazéns e os assobios, em qual dos seus movimentos metálicos / vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?" Como os grandes aedos, Neruda impõe-se uma missão: contar uma história - "Estou aqui para contar a história." Embora se alterem, no curso da fabulação, o processo e a arte do discurso poético, prevalece o engenho. E é graças a ele que o canto mantém, enervada, a sua intensidade.

QUEIROZ, Maria José de. A América sem nome. Rio de Janeiro: Agir, 1997. p. 151-152.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Exposição "Amor e morte", de Lesle Nascimento, inspirada na obra poética de Maria José de Queiroz



Amor e morte

A exposição Amor e morte, de Lesle Nascimento, surge a partir da leitura do livro de poemas Resgate do real: amor e morte, de Maria José de Queiroz, publicado em 1978.  As imagens capturadas pelo fotografo em Belo Horizonte, Buenos Aires, Lisboa e Jerusalém dialogam com a poesia da escritora que tem, nesse livro, o seu ponto máximo e, como mote, a relação, às vezes imponderável, entre o amor e a morte.  A poesia elegante de Maria José de Queiroz é, assim,  entretecida às líricas imagens de Lesle Nascimento. Ao mesmo tempo em que a escrita sugere o ponto de vista, a imagem insinua sombras, dobras, asas. Nesse sentido, “A morte perdeu seu prestígio para que a vida se celebrasse”. Mas não sem antes constituir-se no “caprichoso risco das estelas e das lápides” em que “o misterioso amor às palavras, a celebração dos mortos” é “refrigério das almas”.

Lesle Nascimento é fotógrafo em Belo Horizonte, onde nasceu em 21 de maio de 1973, e Bacharel em Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (lesle@graphe.com.br).

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Nossos mortos


















As mãos se alongam, os braços se abrem:
a paz do féretro une amigos e rivais.
Cúmplices da vida, aliam-se contra a morte.
À ameaça da insônia, em véspera de memória,
o apreço e desprezo do mundo,
apenas murmurados,
ouvem-se em surdo vozeio - acalanto suave.
As palavras saem do silêncio
e a ele regressam
com estranhos primores de orquestra em concerto.
A vida se adivinha no leve ruído dos lábios;
a morte, nas grandes coisas que os gestos insinuam,
lentamente,
profundas, graves e vagas.
Diante do esquife
- barca nova a ser lançada -
a vida ofende, o estrépito desacata.
Em tom menor, a biografia do morto
- âncora sólida -
ainda o detém ao cais, amarra-o à febre
e às intermitências da carne.
Ele e o outro, a quem sucede,
guardam em comum, no corpo insepulto,
o nome, os títulos, a família,
a transparência dos desejos,
o sufrágio dos sonhos e do sono.
Cativo dos vivos, o morto é personagem:
sobrevive em contas e contos,
na prata da casa, na fidelidade do cão,
nos indevassados rincões do êxito,
nos segredos já sem mistério,
na possessão da espera.
A morte é estado;
a vida, ficção miúda, novela episódica,
de complicado enredo.
Todos consideram, como ungidos,
a cabeça disciplinada, as mãos em cruz,
o recato das pernas, o vértice dos pés,
a castidade austera,
a coincidência do tempo e da eternidade.
No rosto do morto, o espelho unânime:
todos os ausentes, todos os desempenhos,
todos os estilos e, em todos, o modelo.
Diante do morto, os vivos exumam os seus mortos:
a doença prolongada, as dores, a lenta agonia
as últimas palavras, o luto, o remorso.
O semblante sereno (parecia dormir!),
a bondade, a mansidão, a modéstia...
Feia pintam a inveja, a cobiça, a ambição da glória.
Comemoram as virtudes que dignificam os que as possuem
e enaltecem os que as celebram.
Sem ofensa aos grandes, sem lástima aos pequenos,
todas as saudades marcam encontro:
velório é ocasião de alívio, de metafísicas alienações
e de desvelo.
Um arrasta o pai; o outro, a mãe;
o terceiro, a filha, o filho;
a viúva, o marido, o amante.
As sombras dos mortos comparecem:
cada qual com o seu dono cada qual com o seu parceiro.
A solidão da morte anônima,
sem fastígio e sem excelência,
publica-se em companhia:
no discurso comovido, quase sussurro,
no elogio das qualidades exemplares,
no olvido das faltas e dos vícios.
A sábia geometria do cemitério
corrige os descaminhos da vida.
Ensina proporção. Medida.
A sua fértil botânica
instrui recente ecologia.
A morte demanda aprendizado:
nunca se morre de uma vez,
num único velório,
nem no próprio enterro.
Escravos de nossas lembranças
os mortos encontram refrigério nas condolências,
nas lágrimas, no luto, nos pêsames.
No fundo de outras pupilas imóveis
são eles ainda, os nossos mortos,
que nos contemplam.

Belo Horizonte, 1974.

QUEIROZ, Maria José de. Resgate do real: amor e morte. Coimbra: Coimbra, 1978.
p. 62-65.


sábado, 7 de setembro de 2013

Tempo de amor

O espírito paira sobre as águas
faz-se luz  no universo:
diante de ti, o Gênesis, a terra.
Véspera de milagre,
na surpresa do gesto inédito,
colhe entre os dedos o grito,
encarcera-o na epiderme
até que lento, bem lento,
se desabroche e floresça
em jardim de muitas veredas,
dedilhado à flor da pele.

Um homem, uma mulher:
a nudez edênica de todos os princípios,
o sagrado ritual de todos os começos.
Esplende a carne casta
na apoteose do mistério:
sangue, músculo e nervo.
Rendida ao primeiro olhar
- tímido, furtivo, discreto,
hesita, disfarça, entrega-se
não, não se entrega,
dividida entre o pudor e o desejo.

De todas as vozes,
o eco:
quantos somos? de quantas noites viemos?
De todas as frases,
o sentido denso:
da adolescência guardamos
a angústia, a culpa, o receio.
De todos os ritmos,
a cadência:
cedem os pulsos cerrados,
rompem-se velhas algemas.
Compassos em pausa
sustentam o silêncio:
noite colorida de tons,
acordes, escalas, arpejos.
Alargam-se em fermata
breves, semibreves enleios.

Nosso tardio evangelho
reescrevemos a medo:
reiventamos o mundo,
a carne faz-se verbo.
Primeira página, Livro 1:
é tempo de amor.
Dissipa-se a solidão das trevas.

QUEIROZ, Maria José de. Resgate do real: amor e morte. Coimbra: Coimbra Editora, 1978. p. 15-16.

domingo, 1 de setembro de 2013

A língua absolvida, de Elias Canetti


A grande repercussão de A língua absolvida. História de uma juventude, a que se seguiram Uma tocha em meu ouvido e Jogos de olhar, conferiu-lhe [Elias Canetti] larga notoriedade na Europa, granjeando-lhe fama internacional. Fama tardia, já nos anos maduros. Ainda assim exaltante. Especialmente após o encalhe de Auto-de-fé e a pálida repercussão de Massa e poder. Donde procede tão súbito entusiasmo? Não mudaram o autor nem o público; mudou o gênero. E nenhum outro, senão as memórias, parece menos rígido nem mais propício à defesa de princípios, à exposição das ideias nem, tampouco, à livre expressão dos sentimentos e das emoções. Porque nele se confundem, dentro dos limites do testemunho pessoal, o romance de figura, o romance de evolução e o romance de formação. Sob os auspícios do pacto autobiográfico exprimem-se, ao abrigo da censura, de toda censura, aptidões, gostos, preferências, ideologias e conhecimentos. O leitor refaz, no curso de uma vida, todo o itinerário percorrido pelo autor. Assimilam-se ao discurso, de palpitante vivacidade, o auto-retrato, o diário, o mergulho introspectivo, tudo isso permeado à crônica do momento político e social, na sua infinita variedade humana. E o que mais interessa: o estilo coloquial, do Eu com o seu duplo, traz o leitor para junto do sujeito.

QUEIROZ, Maria José de. Tempo histórico. Tempo literário. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. p.113.
Refrações no tempo