segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Projeto de Mestrado em Letras - Como me contaram: fábulas historiais, de Maria José de Queiroz, e Atlas, de Jorge Luis Borges

Título: Como me contaram: fábulas historiais, de Maria José de Queiroz, e Atlas, de Jorge Luis Borges

Resumo: O objetivo principal desse projeto é estudar a obra de Maria José de Queiroz a partir da análise da representação das cidades em Como me contaram: fábulas historiais, publicado em 1971, e em Atlas, de Jorge Luis Borges, de 1984.

Em Como me contaram: fábulas historiais, o narrador afirma que “Felizmente não nos atormenta a tentação da referência exata: as datas precisas – dia, mês e ano do acontecido – gastaram-se na constante repetição da história.”, (QUEIROZ, 1973, p. 19). As histórias narradas não são, assim, presas à sua comprovação histórica, já que essa narrativa firma com o leitor um contrato de verossimilhança, de despreocupação com comprovações. O objetivo é narrar “causos”, lendas, histórias.

Uma referência importante em Como me contaram é Jorge Luís Borges. Para a escritora, no relato “Formas de una leyenda”,  o escritor argentino afirma que “a realidade pode ser demasiado complexa para a transmissão oral; a lenda recria de uma maneira que só acidentalmente é falsa e que lhe permite correr mundo de boca em boca. (QUEIROZ, 1973, p. 93).

Utilizar o estilo de lenda ou de fábula seria, assim, uma estratégia literária que não afasta o fato narrado da realidade, mas o isenta da comprovação, do apelo factual. É nesse critério, o da fábula historial, que os textos de Queiroz são construídos. Nesse sentido, Mariana, Sabará, Ouro Preto ou Belo Horizonte, são apresentadas a partir de fábulas, narrativas mistas de ficção e realidade. Criando desse modo, cidades de papel, um mapa ficcional de Minas Gerais.

Orientadora: Profa. Dra. Lyslei Nascimento
Mestranda: Verônica Gomes Olegário Leite
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG
Faculdade de Letras da UFMG
Período: 2013-2014.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Na festa brasileira

Na festa brasileira por excelência, o Carnaval, em que há grande preocupação com guarda-roupa, adereços e respeito à verossimilhança, os índios são representados de forma caricatural. Além do desconhecimento de usos e costumes dos primitivos aborígenes, ignora-se, até, a cor da sua pele. Não é outra a verificação do professor John Monteiro, do Departamento de História da USP, autor do livro Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo (São Paulo: Companhia das Letras, 1994). "A história [matou] os índios", declara o professor norte-americano. E continua: "Estudar índio é tabu entre os historiadores. Em outras partes das Américas, a etno-história, ou história indígena, é escrita tanto por historiadores como antropólogos. Aqui tem sido assumida por antropólogos." 

QUEIROZ, Maria José de. Em nome da pobreza. Rio de Janeiro: Topbooks, 2006. p. 127.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

To die in Rio…


    
Meus caros:

Vocês se lembram, de To die in Madrid?

Pois é. Trata-se do documentário francês, Mourir à Madrid (1963) dirigido por Frédéric Rossif: elenco de prestígio, converteu-se em cult — o mais real e dramático enfoque da Guerra Civil Espanhola — guerra que dividiria o Ocidente e enlutaria centenas de famílias.1
Entre seus heróis, André Malraux, escritor francês, autor de A condição humana (La condition humaine, 1933), sobreviveria aos raids aéreos e aos combates no front: não só lutou e sobreviveu em Madri, como participou da resistência a Franco, morrendo, de morte morrida, em 1976.
De seu engajamento politico dariam testemunho o romance A esperança (L'Espoir, 1937) e Serra de Teruel (Sierra de Teruel,1945). No desempenho das funções de Ministro da Cultura (1958/1969, gov. De Gaulle), realizaria o inadmissível: o resgate, para o presente, da passada grandeza da capital: fez raspar e limpar as fachadas dos grandes monumentos históricos. Paris se réveille
Fundou, ainda, as Casas de Cultura (Maisons de la culture), uma para cada cidade, a fim de permitir o acesso a leitores, estudiosos, artistas e pessoas humildes, de cada município, às grandes obras do espírito. Ao morrer de sua morte, legava ao país, além de vasta bibliografia, obra pública irretocável.
Voltemos à nossa própria casa. 
Se o Rio é o que canta o coral ianque, posso dizer-lhes, mineira que sou, estar disposta a morrer no Rio. 
Primeiro, porque esse refrão é pra inglês ouvir. 
Segundo, porque o Rio nunca deixará de ser a mais bela capital do Novo Continente. E disputa, com Paris, tal excelência. Exibe, a olhos de ver, a beleza natural de sua baía e suas montanhas, das alturas dos Dois irmãos, ao alcance da vista, ao Corcovado e ao Cristo. Dali, em glissado vertiginoso, o olhar abarca o areal branco de Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra. Se o belo é a perfeição, os portugueses o descobriram para o mundo e para nós, seus herdeiros. 
Terceiro, não há, no país, população mais cordial, alegre e solidária que a carioca. E, tenho certeza, não só criou como pratica o "jeitinho brasileiro" de ser (que os mineiros me perdoem).
E há mais: conceberam, e realizam, cantando e dançando, a mais bela festa do mundo — hino multifário, como a banda, coral de celebração da Diferença,  do Plural de todos e da Euforia de viver. 
Saibam que não me serve de SOS o refrão made nowhere desse blablalá, nem, tampouco, o aviso das placas que se leem nas passagens de nível: OLHE  PARE  SIGA.
Depois de ver e admirar nossa baía,  extasiado à contemplação da  Guanabara (e registrou-o em livro), Stefan Zweig optaria por  morrer, com sua companheira, longe do Rio: parou, olhou, viu e seguiu para Petrópolis, fugindo de Hitler e do Nazismo...
Também fiz minha opção: não sigo senão a Paris, cidade-luz , por sua beleza arquitetônica e seu patrimônio histórico. Mas estarei de volta à nossa cidade maravilhosa. Sempre. 
Morrer? Quem há-de salvar-se? Se morreremos todos… Quem escolhe a data? Onde?
Os heróis da guerra civil espanhola e da Força Expedicionária Brasileira, composta de voluntários, os nossos “pracinhas”, responderam, ombro a ombro, em forma, à chamada geral. 
A Nossa América pôs-se em marcha, arma em punho, no combate contra o Eixo, em Monte Cassino e Monte  Castelo, nas Batalhas de Cassino e Castello, em defesa da Europa. 
Descansam, agora, em paz: em Pistóia. 
É isso aí.
Maria José de Queiroz
Paris, 23 de dezembro de 2013.
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Frédéric Rossif (1922, Montenegro, antiga Iugoslávia /1990, Paris). Diretor de filmes e documentários para a tela do cinema e televisão, colaborou, frequentemente, com o compositor Maurice Jarre. Depois de perder toda a família durante a Segunda Grande Guerra, emigra à Itália, estuda em Roma e engaja-se, em 1944, na Legião Estrangeira. Já em Paris, em 1945, passa a trabalhar no Club Saint-Germain e dá início à carreira  no cinema. Atua na Cinémathèque Française, organiza o festival de Vanguarda de Antibes (1949/50) e é contratado, em 1952, pela ORTF. Seu filme Mourir à Madrid (script a duas mãos, com a escritora Madeleine Chapsal) recebe o Prêmio Jean Vigo de 1963, tendo sido indicado, pela Academia, para o Prêmio destinado ao Documentário do ano. No cast  de Mourir à Madrid, incluem-se, entre outros, Suzanne Flon, Pierre Vaneck, Jean Vilar, John Gieguld etc. É de 1970, seu único filme não documentário, Aussi loin que l’amour, que teria Salvador Dalí entre seus atores. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

A hora de Jorge Luís Borges

Quem nos últimos anos esteve em Paris, em espírito ou em letra, provavelmente ouviu a pergunta insistente e curiosa: leu o último livro de Foucault? E que pensa de Les mots et les choses? Diários, folhetos, semanários, revistas abriram páginas e colunas para discutir e analisar um livro dos mais importantes publicados na França desde o advento do existencialismo. Como se inicia?  Com um texto de Borges. Nos Entretiens de 1966, realizados em Cerisy-la-Salle, para discutir Les Chemins Actuels de la critique, um nome veio constantemente às falas e apartes dos congressistas: o do argentino genial. Claro que também se fez menção a Barthes, a Althusser e a Bachelard... A verdade é que esperamos mais de quatro séculos para que nos aceitassem como latino-americanos à mesa do banquete da cultura e da civilização.

QUEIROZ, Maria José de. Presença da literatura hispano-americana. Belo Horizonte: Imprensa/Publicações, 1971. p. 58.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Eles queimaram livros

No outono de 1942, a Biblioteca Pública de Nova Iorque organizaria uma exposição dos livros proibidos e queimados na Alemanha. Patrocinada por Eleanor D. Roosevelt, Albert Einstein e mais personalidades políticas, escritores, cientistas e professores, a mostra foi inaugurada com discursos e protestos de repúdio ao auto-de-fé. Autores ingleses e americanos, cujas obras tinham sido proibidas pelos nazistas, deram seu testemunho. Sucedem-se exposições, reuniões, conferências e debates, sempre em torno da fúria incendiária do Terceiro Reich. Bandeiras a meio pau divulgam o luto das bibliotecas e das escolas do país; numa emissão especial, a cargo de Stephen Vincent Benet, a NBC chama a atenção do país para o crime nefando: They burned the books - Eles queimaram livros. Para registro ad perpetuam rei memoriam, editou-se uma brochura, para distribuição nas escolas, sob o título Ten years ago the nazis lighted the way of their own destruction - Há dez anos os nazistas iluminaram o caminho de sua própria destruição.
Mas a comemoração não estaria completa se não se ouvisse a voz do campeão da liberdade - o presidente dos Estados Unidos. Ao falar sobre a data abominável - 10 de maio de 1933 - Roosevelt declara:

"Sabemos todos que os livros se queimam. Mas sabemos ainda mais que os livros não podem ser destruídos pelo fogo. Os homens morrem mas os livros não morrem nunca. Nenhum homem e nenhuma violência podem extinguir a sua lembrança. Nenhum homem e nenhuma violência podem encerrar o pensamento, para sempre, num campo de concentração. Nenhum homem e nenhuma violência podem expulsar do mundo os livros que exprimem o eterno combate da humanidade contra a tirania. Nós sabemos que, nessa guerra, os livros são armas".

QUEIROZ, Maria José de. Os males da ausência ou A literatura do exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. p. 597.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

No fim do caminho estava Vila Rica

Nossa existência parecia em suspenso. O medo da virada do século não voltara a preocupar minha mãe. As angústias do regresso, intensas no início da viagem, já me haviam abandonado. O movimento da cavalgadura, a presença de gente estranha, a mudança de paisagem, a constante e sucessiva diferença de clima - tudo isso me descansava, fazendo-me esquecer que no fim do caminho estava Vila Rica. Nunca fui tão livre: livre do meu tempo, dos meus pensamentos e das minhas emoções. Abrasada às vezes de calor durante o dia, gelada de frio durante a noite, pouco me importavam as fadigas físicas. Fui quase feliz. Mais que isso: fui feliz.

QUEIROZ, Maria José. Joaquina, filha do Tiradentes. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. p. 124.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O prazer de comer e o prazer da mesa

O prazer de comer é a sensação atual e direta de uma necessidade que se satisfaz enquanto que o prazer da mesa é a sensação refletida que nasce das diversas circunstâncias de fatos, lugares, coisas de personagens que acompanham  a refeição. O prazer de comer nos é comum com os animais; depende da fome e daquilo que é necessário para satisfazê-la. O prazer da mesa é particular à espécie humana; supõe cuidados prévios na preparação da refeição, na escolha do local e na reunião dos convivas. Enquanto o prazer de comer  exige, senão a fome, pelo menos o apetite, o prazer da mesa é, no mais das vezes, independente tanto de um quanto de outro.

QUEIROZ, Maria José de. A comida e a cozinha: iniciação à arte de comer. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1988. p. 103

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Por uma carta gastronômica do continente

Esperamos que o bom exemplo de Luís da Câmara Cascudo, ao publicar a História da alimentação no Brasil; de Silva Mello, a Alimentação no Brasil; de Eduardo Frieiro, ao redigir o seu Feijão, angu e couve; de Guilherme Figueiredo, com o seu Comidas, meu santo!, e de Antônio Houaiss, a Magia da cozinha brasileira, frutifique nesta e em outras Américas para que se possa elaborar a Carta Gastronômica do continente. Pois é de supor-se que essa carta fornecerá revelações tão valiosas e tanto mais esclarecedoras sobre os fenômenos culturais americanos quanto a Carta Alcoólica reclamada por Germán Arciniegas. A atender aos dois reclamos, veríamos, bem delineados nas zonas açucareiras, os países da aguardente - o ron e a cachaça -, e, nos países do milho, a ocorrência simultânea da chicha e da tortilla. A presença do mescal e da tequila haveria de colorir o mapa do México, concorrendo com os pratos "ao chocolate", como, por exemplo, o mole poblano. A "branquinha" delimitaria as fronteiras do Brasil, onde pontifica a feijoada negra. O "amargo" - o mate - poria em perigo a hegemonia da vinha nas regiões do Sul, competindo nas grandes carneadas, prolongando o prazer do churrasco e da parrillada. Quando chegarmos a essa perfeição cartográfica, teremos também realizado o propósito estruturalista de Lévy-Strauss escrevendo a história americana dos hábitos à mesa.

QUEIROZ, Maria José de. A América sem nome. Rio de Janeiro: Agir, 1997. p. 34.

sábado, 30 de novembro de 2013

Pentecostes

Tempo de amor
- terceira margem do rio,
tumba e cal de memórias
ancorados -
denuncio.
À doce ilusão
de afeto breve
renuncio.
Em alegre Pentecoste
de liberdade recuperada
anuncio:
os olhos tenho vendados
a Eros e seu prestígio.

Núncio nuncial
incipial
de alma liberada:
a consciência esclarece e ilumina.

Paris, inverno de 1970.

QUEIROZ, Maria José de. Exercício de gravitação. Coimbra: Atlântida, 1972. p. 66.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Os castigos

Os castigos propiciaram a Victor Hugo não apenas uma purga, uma catarse; oferecera-lhe a ocasião de falar no seu próprio nome, sem censura, sem falso recato, sem modéstia. Isento de compromissos políticos, imune à pompa acadêmica, alheio à notoriedade pública e à nomeada pessoal, desvinculado da crença religiosa e da fidelidade aos laços conjugais, indiferente à fama, embora atento à glória, a poesia desata-lhe a língua, ratificando o sursis de todos os gravames a que a sociedade, a República, a igreja, a cidadania e as letras o sujeitavam. Estava livre. De direito e de fato. Para berrar, vociferar e fazer ouvir, nos quatro cantos da terra, o seu clamor oceânico. Não há quem o detenha nem quem o faça calar. Não há nobreza de gênero que o impeça de versar esse ou aquele tema. Invade a literatura, banqueteia-se com todos os gêneros, passa como um vendaval pelo dicionário e depois de inquietar os donos do poder põe em alarme os donos do conhecimento. Não, não era um louco que pensava que fosse Victor Hugo. Aos olhos de Juliette era Deus. E era mesmo: era a poiésis encarnada.

QUEIROZ, Maria José de. Os males da ausência ou A literatura do exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. p. 262-263.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Projetos


1) Iniciação Científica

1.1 Como me contaram: espaços abertos em tempos diversos

Resumo: Este projeto tem, por objetivo geral, promover uma leitura de Como me contaram; fábulas historiais, 1971, da escritora mineira Maria José de Queiroz, observando como as cidades estão ali representadas. A obra da escritora mineira é bastante extensa, incluindo livros de poemas e de ficção, além de ensaios sobre temas relacionados à literatura. Nesse livro em particular, Queiroz elabora um registro literário de narrativas colhidas na cultura oral ou garimpadas nos registros históricos dos Autos da Devassa, sempre à luz da imaginação que ora preenche lacunas ora as expande para dar lugar à curiosidade do leitor. Ainda que a maioria dos textos tenha caráter narrativo, o livro traz também alguns poemas que ampliam o diálogo estabelecido com aqueles que lhe forneceram as histórias, acrescentando também os amigos de letras convidados a compartilhar esse universo reinventado.

Coordenadora e Orientadora: Profa. Dra. Mariângela de Andrade Paraizo
Aluno pesquisador: Thiago Nunes Santana
Faculdade de Letras da UFMG
Período: 2013-2014.

2) Mestrado 

2.1 Como me contaram: fábulas historiais, de Maria José de Queiroz, e Atlas, de Jorge Luis Borges

Resumo: Este projeto objetiva realizar uma leitura comparada da representação das cidades literárias em Como me contaram: fábulas historiais, de Maria José de Queiroz, e Atlas, de Jorge Luis Borges. O pacto entre autor e leitor no livro de Queiroz não é garantido apenas pelas constantes afirmações de ficção feitas pelo narrador nos textos. Esse pacto também é firmado com a memória do leitor, como acontece com Marco Polo, em Cidades invisíveis, de Italo Calvino: “Eu também imaginei um modelo de cidade do qual extraio todas as outras”. Portanto, todo leitor já possuiria em sua mente um modelo de cidade que se expande à medida que é apresentado a cada cidade na ficção.

Orientadora: Profa. Dra. Lyslei Nascimento
Mestranda: Verônica Gomes Olegário Leite
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG
Período: 2014-2016.

3) Doutorado

3.1 Viagem por caminhos e tintas de América: a literatura hispano-americana de Maria José de Queiroz em Homem de sete partidas

Resumo: Este projeto objetiva, a partir do romance Homem de sete partidas, de Maria José de Queiroz, analisar a construção do conceito de literatura hispano-americana da escritora. Ao questionar a existência de uma literatura hispano-americana, o escritor mexicano Octavio Paz, diferentemente de Queiroz, afirma que os considerados hispano-americanos são aqueles que falam/escrevem em espanhol. No entanto, o crítico acaba por abordar alguns aspectos de significativa relevância para essa questão. Um desses aspectos diz respeito a uma aparente unidade dos países de língua espanhola. Para Paz, “unidade não é uniformidade”.  Escreve-se neste espaço não uma literatura única em espanhol, ou ainda, fechada pelas fronteiras e rótulos nacionais – o que, por isso mesmo, não nos exclui. Aproveitando-se da possibilidade de “saltar fronteiras”, o romance Homem de sete partidas compreende como espaço a floresta, cujos limites não se restringem à cartografia oficial, traçados por mapas criados/pensados por poderes político-ideológicos.  A floresta amazônica seria, para Queiroz, um lugar de entrelaçamento, de mistura. Neste romance, apagam-se os limites entre Brasil, Colômbia, Peru. O romance, assim, oferece ao leitor uma oportunidade para se refletir sobre o território hispano-americano, num passeio por sua história, percorrendo tempos e espaços pela arte ficcional.

Orientadora: Profa. Dra. Lyslei Nascimento
Doutoranda: Ivana Teixeira Figueiredo Gund
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG
Período: 2014-2017.

3.2 História, memória e cotidiano nas narrativas de Maria José de Queiroz
 


Resumo: Este projeto objetiva estudar as relações entre a História, a Memória e o cotidiano na obra de Maria José de Queiroz, ancoradas nas relações entre historiografia e literatura na construção dos romances contos e novelas, além de procurar as fronteiras que medeiam a História oficial e as histórias ficcionais. Nesse contexto, pretende-se ainda esclarecer de que forma o texto híbrido que daí resulta constitui-se, também, em uma forma de construção do passado e de sua atualização no presente.

Orientadora: Profa. Dra. Constância Duarte
Doutoranda:  Maria Lúcia Barbosa
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG
Período: 2014-2017.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

13 de julho de 1791



QUEIROZ, Maria José de. 13 de julho de 1789. In: ______. Como me contaram: fábulas historiais. Belo Horizonte: Imprensa/Publicações, 1973. p. 79-81.

sábado, 2 de novembro de 2013

É o homem livre que fala do encarcerado

Van Gogh declarava que o pintor não pinta o que vê mas o que sente. Manifestadamente, não se aplicará também a quem escreve o mesmo aforismo? A tomada de consciência a que nos obrigamos, introduzidos no conhecimento de uma realidade sentida, aspira a instruir-nos sobre uma realidade vista. Acautelemo-nos no entanto: não nos esqueçamos do que a prisão significa na sucessão dos episódios vividos pelo prisioneiro. Na projeção do presente sobre o passado (porque geralmente, é o homem livre que fala do encarcerado), cumpre atentar na convergência das suas visões do mundo, presas a dois tempos, que se integram na reflexão histórica em que o autor força o leitor a situar-se na sua história - ida e vivida.

QUEIROZ, Maria José de. A literatura encarcerada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. p. 145. 

domingo, 20 de outubro de 2013

A selva fortalece e consagra amizades

Vinte e três anos de convivência com a floresta, com as cobras, os insetos, as febres, as piranhas e... com a morte. A morte sem disfarce. Quando ataca, ataca sem piedade: de frente. Só o homem, na selva, ataca por trás, de emboscada. Só o homem é hipócrita e mal-intencionado. Dos bichos e das árvores não tenho queixas. Marcaram-me fundo. Mas combatemos combate leal! Hay que temer a los hombres! No entanto quando se tem um amigo... A selva fortalece e consagra as amizades. Ali, sim, é que a fidelidade do amigo se põe à prova. O verniz da civilização não tem razão de ser. Supérfluas nos parecem, e falsas, as fórmulas de polidez, os elogios, os agrados, a solidariedade de fachada. A floresta, testemunha silenciosa, exige atos e não palavras.

QUEIROZ, Maria José de.  Homem de sete partidas. 2. ed.  Rio de Janeiro:  Record,  1999.   p. 86.

sábado, 12 de outubro de 2013

Dorotéia

Noites brancas, sem sossego,
manhã fria de Ouro Preto
Marília, noiva do vento.

O rico vestido bordado,
as liras apaixonadas,
as promessas... o noivo...
Palavras.

Nas ruas, o olhar avesso,
nas rótulas, o vago vozeio,
o riso, a família... Bem feito!

Primeiro a vergonha, o processo,
a dúvida, os versos.
O amor vence tudo,
ainda há esperança...
Dá-se um jeito.
Os dias passando, os meses,
cartas raras, o degredo.
À África? Quem sabe?
Coração maior do que o mundo...
Se amor existe, o mar é pouco...

Dá-se um jeito.
O silêncio.
Silêncio longo de anos,
o casamento, o lar... o dinheiro...
São estes os campos?
Talvez.
Na casa de muitos quartos,
corredores estreitos,
madrugadas prenhes de espantos.
A solidão, fiel conselheira,
desenreda velhos novelos,
corrige passados enganos.
Marília, noiva esquecida,
responde pelo seu nome.
Liras e versos falazes
esquecem-se entre duas fraldas,
no leve embalo do berço
com uma canção de ninar.
São estes os campos?
São estes.
Dorotéia os desencantou.

Belo Horizonte, 1973.

QUEIROZ, Maria José de. Exercício de fiandeira. Coimbra: Coimbra, 1974. p. 35-36.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Paixão inútil

Em vão me distraio
no suor e na pena,
no proveito e no ganho,
no esforço diário
da moenda e do pão.
Reinvento leis e parábolas,
prêmio e castigo,
abono a tristeza legítima
(a única, dizem)
de não ser santo.
Em precipitada fuga
aos minerais negros,
ao sol ávido e à herança de sal,
aspiro à graça mística
do saber de salvação.

Finjo aplicar-me
e... quase me convenço:
mato o  tempo,
mastigo ilusões.
Mas sempre me sobram, sempre,
sonhos rebeldes, insônia,
brancas vigílias de sabores ambíguos,
densos perfumes,
rumores súbitos,
rosas rubras.
O corpo alerta
às numéricas palavras
- datas, meses, anos -
ao que falta, ao que resta,
nefastas lembranças,
frustrações...
Ignoro causas,
desconheço pretextos
e me vejo eleito,
em metáfora de viagem
- acaso, necessidade ou maldição - a concluir vidas
em mim prolongadas
sem remissão.
Faço contas,
demoro-me no cálculo:
dinastias milenares
acumulam-se no esquecimento,
sedimentadas de amor e ódio,
desespero e arrogância.
Pesa-me o fardo
de tão longo itinerário
à margem de ataúdes e vultos
que tangem lentas lembranças.
O destino, claro, importa pouco:
nascimento e morte,
começo e fim igualmente se consomem
no cego fulgor da febre e na ciência do pranto.
Pois a mim, afinal, de que me valem
as profecias delirantes,
a família, a honra, o nome,
as dinastias milenares
e sua carga de olvido e de sangue,
se, no assombro de ser,
inutilmente,
lavro o tempo estéril
e semeio meu  legado de cinza e solidões?

Belo Horizonte, abril, 1975.

QUEIROZ, Maria José de. Para que serve um arco-íris? Belo Horizonte: Imprensa, 1982.
p. 81-82. 


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Quanto maior o sofrimento, maior a glória


Grandes igrejas, velas, candelabros, ornamentação luxuosa, missas caras, eis o que se exige dos indígenas para agradar a taita Dios e fazê-lo esquecer as injúrias. Recompensa? O paraíso. Quanto maiores os sofrimentos, maior a glória celeste. Los bienes espirituales son permanentes. Los sufrimientos y la fe, la fe en la Providencia, abren el camino de la felicidad eterna en el seno del Señor... Aconselha-se resignación y espíritu cristiano. Se não receberem recompensa neste mundo, melhor... A doutrina cristã acena-lhes com a felicidade no outro.


QUEIROZ, Maria José de. Do indianismo ao indigenismo nas letras hispano-americanas. Belo Horizonte: Imprensa da Universidade de Minas Gerais, 1962. p. 143.

domingo, 29 de setembro de 2013

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Amori

Ao meu corpo entregaste
cansaço de muitas paredes,
vozes de muitas salas.

No teu corpo carregavas
choros, soluços e lágrimas,
recalques de triste infância
e mais injustiças e frases
de tempo vivido e gasto.

A máscara do dia-a-dia
já não te  fazia falta:
deixaste-a nos meus ombros
ao descalçar tua honra,
teu passo firme e válido,
tua invencível vaidade.
No meu corpo repousaste
todo o peso da tua alma.

Encenamos tragédia grega
no disfarce bem logrado
da verdadeira persona
que arrancamos à cara.

Na fogueira de Eros
queimamos nossos fantasmas.
Ó busca insaciada
de unidade lábil
- perdida e recuperada!

Sob o signo do amor,
invocamos Thanatos:
morremos e renascemos,
despertamos justificados.

Humilhados e tímidos,
na nudez do fruto provado,
reassumimos no sono
a face do justo,
a inocência do hábito.

Já altivos deparamos (Ora se...),
nos pés alevantados,
o vértice dos bípedes,
sem asas.

Seres pedestres, verticais,
à frente da oração,
e da criação,
repetimos gestos,
prolongamos a vida,
em fuga interminável.

QUEIROZ, Maria José de. Resgate do real: amor e morte. Coimbra: Coimbra, 1978.
p. 32-33.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Geografia final, livro de pedra

"Geografia final, livro de pedra", o Canto Geral ajuda-nos a conhecer o homem em toda a duração do seu inquieto deambular pela terra: "Que era o homem? Em que parte de sua conversa franca / entre os armazéns e os assobios, em qual dos seus movimentos metálicos / vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?" Como os grandes aedos, Neruda impõe-se uma missão: contar uma história - "Estou aqui para contar a história." Embora se alterem, no curso da fabulação, o processo e a arte do discurso poético, prevalece o engenho. E é graças a ele que o canto mantém, enervada, a sua intensidade.

QUEIROZ, Maria José de. A América sem nome. Rio de Janeiro: Agir, 1997. p. 151-152.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Exposição "Amor e morte", de Lesle Nascimento, inspirada na obra poética de Maria José de Queiroz



Amor e morte

A exposição Amor e morte, de Lesle Nascimento, surge a partir da leitura do livro de poemas Resgate do real: amor e morte, de Maria José de Queiroz, publicado em 1978.  As imagens capturadas pelo fotografo em Belo Horizonte, Buenos Aires, Lisboa e Jerusalém dialogam com a poesia da escritora que tem, nesse livro, o seu ponto máximo e, como mote, a relação, às vezes imponderável, entre o amor e a morte.  A poesia elegante de Maria José de Queiroz é, assim,  entretecida às líricas imagens de Lesle Nascimento. Ao mesmo tempo em que a escrita sugere o ponto de vista, a imagem insinua sombras, dobras, asas. Nesse sentido, “A morte perdeu seu prestígio para que a vida se celebrasse”. Mas não sem antes constituir-se no “caprichoso risco das estelas e das lápides” em que “o misterioso amor às palavras, a celebração dos mortos” é “refrigério das almas”.

Lesle Nascimento é fotógrafo em Belo Horizonte, onde nasceu em 21 de maio de 1973, e Bacharel em Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (lesle@graphe.com.br).

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Nossos mortos


















As mãos se alongam, os braços se abrem:
a paz do féretro une amigos e rivais.
Cúmplices da vida, aliam-se contra a morte.
À ameaça da insônia, em véspera de memória,
o apreço e desprezo do mundo,
apenas murmurados,
ouvem-se em surdo vozeio - acalanto suave.
As palavras saem do silêncio
e a ele regressam
com estranhos primores de orquestra em concerto.
A vida se adivinha no leve ruído dos lábios;
a morte, nas grandes coisas que os gestos insinuam,
lentamente,
profundas, graves e vagas.
Diante do esquife
- barca nova a ser lançada -
a vida ofende, o estrépito desacata.
Em tom menor, a biografia do morto
- âncora sólida -
ainda o detém ao cais, amarra-o à febre
e às intermitências da carne.
Ele e o outro, a quem sucede,
guardam em comum, no corpo insepulto,
o nome, os títulos, a família,
a transparência dos desejos,
o sufrágio dos sonhos e do sono.
Cativo dos vivos, o morto é personagem:
sobrevive em contas e contos,
na prata da casa, na fidelidade do cão,
nos indevassados rincões do êxito,
nos segredos já sem mistério,
na possessão da espera.
A morte é estado;
a vida, ficção miúda, novela episódica,
de complicado enredo.
Todos consideram, como ungidos,
a cabeça disciplinada, as mãos em cruz,
o recato das pernas, o vértice dos pés,
a castidade austera,
a coincidência do tempo e da eternidade.
No rosto do morto, o espelho unânime:
todos os ausentes, todos os desempenhos,
todos os estilos e, em todos, o modelo.
Diante do morto, os vivos exumam os seus mortos:
a doença prolongada, as dores, a lenta agonia
as últimas palavras, o luto, o remorso.
O semblante sereno (parecia dormir!),
a bondade, a mansidão, a modéstia...
Feia pintam a inveja, a cobiça, a ambição da glória.
Comemoram as virtudes que dignificam os que as possuem
e enaltecem os que as celebram.
Sem ofensa aos grandes, sem lástima aos pequenos,
todas as saudades marcam encontro:
velório é ocasião de alívio, de metafísicas alienações
e de desvelo.
Um arrasta o pai; o outro, a mãe;
o terceiro, a filha, o filho;
a viúva, o marido, o amante.
As sombras dos mortos comparecem:
cada qual com o seu dono cada qual com o seu parceiro.
A solidão da morte anônima,
sem fastígio e sem excelência,
publica-se em companhia:
no discurso comovido, quase sussurro,
no elogio das qualidades exemplares,
no olvido das faltas e dos vícios.
A sábia geometria do cemitério
corrige os descaminhos da vida.
Ensina proporção. Medida.
A sua fértil botânica
instrui recente ecologia.
A morte demanda aprendizado:
nunca se morre de uma vez,
num único velório,
nem no próprio enterro.
Escravos de nossas lembranças
os mortos encontram refrigério nas condolências,
nas lágrimas, no luto, nos pêsames.
No fundo de outras pupilas imóveis
são eles ainda, os nossos mortos,
que nos contemplam.

Belo Horizonte, 1974.

QUEIROZ, Maria José de. Resgate do real: amor e morte. Coimbra: Coimbra, 1978.
p. 62-65.


sábado, 7 de setembro de 2013

Tempo de amor

O espírito paira sobre as águas
faz-se luz  no universo:
diante de ti, o Gênesis, a terra.
Véspera de milagre,
na surpresa do gesto inédito,
colhe entre os dedos o grito,
encarcera-o na epiderme
até que lento, bem lento,
se desabroche e floresça
em jardim de muitas veredas,
dedilhado à flor da pele.

Um homem, uma mulher:
a nudez edênica de todos os princípios,
o sagrado ritual de todos os começos.
Esplende a carne casta
na apoteose do mistério:
sangue, músculo e nervo.
Rendida ao primeiro olhar
- tímido, furtivo, discreto,
hesita, disfarça, entrega-se
não, não se entrega,
dividida entre o pudor e o desejo.

De todas as vozes,
o eco:
quantos somos? de quantas noites viemos?
De todas as frases,
o sentido denso:
da adolescência guardamos
a angústia, a culpa, o receio.
De todos os ritmos,
a cadência:
cedem os pulsos cerrados,
rompem-se velhas algemas.
Compassos em pausa
sustentam o silêncio:
noite colorida de tons,
acordes, escalas, arpejos.
Alargam-se em fermata
breves, semibreves enleios.

Nosso tardio evangelho
reescrevemos a medo:
reiventamos o mundo,
a carne faz-se verbo.
Primeira página, Livro 1:
é tempo de amor.
Dissipa-se a solidão das trevas.

QUEIROZ, Maria José de. Resgate do real: amor e morte. Coimbra: Coimbra Editora, 1978. p. 15-16.

domingo, 1 de setembro de 2013

A língua absolvida, de Elias Canetti


A grande repercussão de A língua absolvida. História de uma juventude, a que se seguiram Uma tocha em meu ouvido e Jogos de olhar, conferiu-lhe [Elias Canetti] larga notoriedade na Europa, granjeando-lhe fama internacional. Fama tardia, já nos anos maduros. Ainda assim exaltante. Especialmente após o encalhe de Auto-de-fé e a pálida repercussão de Massa e poder. Donde procede tão súbito entusiasmo? Não mudaram o autor nem o público; mudou o gênero. E nenhum outro, senão as memórias, parece menos rígido nem mais propício à defesa de princípios, à exposição das ideias nem, tampouco, à livre expressão dos sentimentos e das emoções. Porque nele se confundem, dentro dos limites do testemunho pessoal, o romance de figura, o romance de evolução e o romance de formação. Sob os auspícios do pacto autobiográfico exprimem-se, ao abrigo da censura, de toda censura, aptidões, gostos, preferências, ideologias e conhecimentos. O leitor refaz, no curso de uma vida, todo o itinerário percorrido pelo autor. Assimilam-se ao discurso, de palpitante vivacidade, o auto-retrato, o diário, o mergulho introspectivo, tudo isso permeado à crônica do momento político e social, na sua infinita variedade humana. E o que mais interessa: o estilo coloquial, do Eu com o seu duplo, traz o leitor para junto do sujeito.

QUEIROZ, Maria José de. Tempo histórico. Tempo literário. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. p.113.
Refrações no tempo

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A obsessão do espelho

A obsessão do espelho nas mais variadas implicações com o mito de Narciso constantemente se reelabora. Na busca incessante de si  mesmo, da sua verdade, o homem descobre na imagem refletida a prova física da existência. Só ela lhe oferece o sujeito como objeto, guardada a sua identidade e semelhança. Sucede às vezes apoderar-se o espelho da imagem-objeto para transformá-la em sujeito aos olhos do original. A partir de então, o sujeito só se encontra na contemplação da figura aprisionada pelo cristal. É ela que o assegura da sua existência como personagem. É ela que lhe sugere gestos e posturas. A fábula da rainha vaidosa endossa não só o comportamento da coquette, que se mira a cada instante no espelhinho da bolsa, como a conduta do homem cuja maior preocupação é a figura que faz  aos olhos (espelho) dos outros. Transfere-se, portanto, ao espelho a essencialidade humana.



QUEIROZ, Maria José de. Cesar Vallejo: ser e existência. Coimbra: Atlântida, 1971. p. 87.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

VI Seminário de Pesquisa de Literatura Brasileira - Faculdade de Letras da UFMG, 29 de agosto de 2013


A literatura hispano-americana

Quando se considera a literatura hispano-americana com o intuito de traçar-lhe a perspectiva, entra pelos olhos a visão caleidoscópica deste mundo novo, de tão complexa formação. Como reduzi-la à unidade se, das pirâmides astecas às solidões da Patagônia, tudo é Hispano-América? Haverá também para tão larga faixa de terra, onde "ainda se reza a Jesus Cristo e se fala espanhol", a possibilidade de síntese literária? Ou seríamos obrigados a renunciar à tentação da singularidade para adotar o conceito plural de literaturas hispano-americanas? Dessarte teríamos no plano da política como no das letras a colcha de retalhos, "América hecha añicos" - a que se referia com tristeza o libertador Bolívar. Literatura argentina uruguaia, paraguaia, venezuelana, portorriquense, chilena, guatemalteca... "qué sé yo?".

QUEIROZ, Maria José de. Presença da literatura hispano-americana. Belo Horizonte: Imprensa/Publicações, 1971. p. 22-23.

sábado, 10 de agosto de 2013

A tragédia original do espírito e da alma

Considera-se hoje Dostoievski como o precursor dos estudos psicanalíticos.  Ninguém, como ele, esquadrinhou com maior perspicácia os subterrâneos da alma humana. "Com prazer sádico" - insinuaram alguns - "ele desceu às regiões tenebrosas, caóticas e mórbidas"(1). Houve quem contasse mais de quarenta diferentes tipos de anormais presentes na sua obra. E houve também quem o acusasse de pintar o mundo com um vasto asilo de alienados. O certo é que a preocupação do escritor russo não eram diagnósticos patológicos nem a anamnese clínica: interessavam-lhe as personagens como "casos psicológicos", "do mesmo modo que, nas suas descrições do crime, trata, antes de tudo, de revelar a tragédia original do espírito e da alma. A Dostoievski a perturbação mental do espírito e da alma. A Dostoievski a perturbação mental não sugere o problema médico da cura do cérebro de uma alma sofrida. A sua compreensão não procede de observação objetiva, vem-lhe da experiência e do sofrimento pessoais."(2)

(1) FÜLOP-MILLER, Ren. Dostoievski, précursor de la psychanalyse. In: Dostoievski: l'intitif, le croyant, le poète. Paris: Éditions Albin-Michel, 1954. p. 145.

(2)  FÜLOP-MILLER, 1954, p. 155.

QUEIROZ, Maria José de. A literatura alucinada: do êxtase das drogas à vertigem da loucura. Rio de Janeiro: Atheneu Cultura, 1990. p. 86.



terça-feira, 16 de julho de 2013

O tom confessional na poesia de Juana de Ibarbourou

O tom confessional na poesia de Juana de Ibarbourou, declaradamente autobiográfico, assim o cremos, facilita-nos a tarefa, já de si tão complexa. Sua riqueza em aspectos humanos, geográficos e temporais permite-nos avaliar a importância da intromissão da vivência no domínio da experiência poética. Antes de nada, o nascimento em Melo, "villa extendida sobre una llanura junto al río bordeado de cañas tacuaras", explica o amor à natureza agreste, a intimidade com o luar, o conhecimento das coisas que fazem a alegria da vida do interior.



QUEIROZ, Maria José de. A poesia de Juana de Ibarbourou. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1961. p. 64-65.

domingo, 14 de julho de 2013

A cidade prometida

Nem barco nem vela,
nem rio nem mar:
caminhos de ir
e nunca voltar.
Exílio definitivo
de golfos e enseadas
no voluntário olvido
de espumas e ressacas.
Entre montanha e serra,
minério e granito,
terra a conquistar,
terra a povoar,
partida sem retorno,
adeus sem suspiro.
De Vila Rica,
a lembrança e o mito:
ilusões de riqueza,
a Derrama, a Inconfidência,
imagens, capelas e liras.
O morro da Queimada, Tiradentes,
Aleijadinho, Antônio Dias,
minas exaustas, a portada de São Francisco.
A coragem na mochila,
nos pés, a determinação do caminho.
Cabeça erguida, braço firme,
nervo pronto ao desafio.
O sertão se rende ao mais forte,
a cidade, ao que nela habita.
Uma, duas, muitas cores,
o crepúsculo se ilumina:
na montanha, a sua moldura,
no céu, tela de raro tecido.
O viajante deslumbrado
desenha janelas na alma
para debruçar nostalgias
do Itacolomi entre névoas
em tarde de garoa e frio.
Esquece a dureza do solo,
planta casas, colhe ruas
e suas noites insones
florescem em avenidas.
A capital desperta
no fundo das suas pupilas
e um milhão de habitantes
descansa entre sono e vigília.
Fantasma dos mais queridos,
visão edênica, Utopia,
a cidade se insinua
entre nuvens e bruma,
luminosa,
no infinito.
Fresca de flores, cimento, pólen,
cinge-o com carinho.
No seu pulso verde, elétrico,
sangue de muitas raças,
devoção a vário rito.
No seu corpo delgado,
calor e abrigo.

Mas na manhã clara, serena,
o sonho se dissipa.
A alma, leve, se agita
a recordar - fantasia! - 
grata visão noturna
de espírito ocioso, 
presa fácil do delírio.

Belo Horizonte, 12 de dezembro de 1971, aniversário da cidade.

QUEIROZ, Maria José de. Como me contaram: fábulas historiais. Belo Horizonte: Imprensa/Publicações, 1973. p. 145-149.