segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Projeto de Mestrado em Letras - Como me contaram: fábulas historiais, de Maria José de Queiroz, e Atlas, de Jorge Luis Borges

Título: Como me contaram: fábulas historiais, de Maria José de Queiroz, e Atlas, de Jorge Luis Borges

Resumo: O objetivo principal desse projeto é estudar a obra de Maria José de Queiroz a partir da análise da representação das cidades em Como me contaram: fábulas historiais, publicado em 1971, e em Atlas, de Jorge Luis Borges, de 1984.

Em Como me contaram: fábulas historiais, o narrador afirma que “Felizmente não nos atormenta a tentação da referência exata: as datas precisas – dia, mês e ano do acontecido – gastaram-se na constante repetição da história.”, (QUEIROZ, 1973, p. 19). As histórias narradas não são, assim, presas à sua comprovação histórica, já que essa narrativa firma com o leitor um contrato de verossimilhança, de despreocupação com comprovações. O objetivo é narrar “causos”, lendas, histórias.

Uma referência importante em Como me contaram é Jorge Luís Borges. Para a escritora, no relato “Formas de una leyenda”,  o escritor argentino afirma que “a realidade pode ser demasiado complexa para a transmissão oral; a lenda recria de uma maneira que só acidentalmente é falsa e que lhe permite correr mundo de boca em boca. (QUEIROZ, 1973, p. 93).

Utilizar o estilo de lenda ou de fábula seria, assim, uma estratégia literária que não afasta o fato narrado da realidade, mas o isenta da comprovação, do apelo factual. É nesse critério, o da fábula historial, que os textos de Queiroz são construídos. Nesse sentido, Mariana, Sabará, Ouro Preto ou Belo Horizonte, são apresentadas a partir de fábulas, narrativas mistas de ficção e realidade. Criando desse modo, cidades de papel, um mapa ficcional de Minas Gerais.

Orientadora: Profa. Dra. Lyslei Nascimento
Mestranda: Verônica Gomes Olegário Leite
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG
Faculdade de Letras da UFMG
Período: 2013-2014.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Na festa brasileira

Na festa brasileira por excelência, o Carnaval, em que há grande preocupação com guarda-roupa, adereços e respeito à verossimilhança, os índios são representados de forma caricatural. Além do desconhecimento de usos e costumes dos primitivos aborígenes, ignora-se, até, a cor da sua pele. Não é outra a verificação do professor John Monteiro, do Departamento de História da USP, autor do livro Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo (São Paulo: Companhia das Letras, 1994). "A história [matou] os índios", declara o professor norte-americano. E continua: "Estudar índio é tabu entre os historiadores. Em outras partes das Américas, a etno-história, ou história indígena, é escrita tanto por historiadores como antropólogos. Aqui tem sido assumida por antropólogos." 

QUEIROZ, Maria José de. Em nome da pobreza. Rio de Janeiro: Topbooks, 2006. p. 127.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

To die in Rio…


    
Meus caros:

Vocês se lembram, de To die in Madrid?

Pois é. Trata-se do documentário francês, Mourir à Madrid (1963) dirigido por Frédéric Rossif: elenco de prestígio, converteu-se em cult — o mais real e dramático enfoque da Guerra Civil Espanhola — guerra que dividiria o Ocidente e enlutaria centenas de famílias.1
Entre seus heróis, André Malraux, escritor francês, autor de A condição humana (La condition humaine, 1933), sobreviveria aos raids aéreos e aos combates no front: não só lutou e sobreviveu em Madri, como participou da resistência a Franco, morrendo, de morte morrida, em 1976.
De seu engajamento politico dariam testemunho o romance A esperança (L'Espoir, 1937) e Serra de Teruel (Sierra de Teruel,1945). No desempenho das funções de Ministro da Cultura (1958/1969, gov. De Gaulle), realizaria o inadmissível: o resgate, para o presente, da passada grandeza da capital: fez raspar e limpar as fachadas dos grandes monumentos históricos. Paris se réveille
Fundou, ainda, as Casas de Cultura (Maisons de la culture), uma para cada cidade, a fim de permitir o acesso a leitores, estudiosos, artistas e pessoas humildes, de cada município, às grandes obras do espírito. Ao morrer de sua morte, legava ao país, além de vasta bibliografia, obra pública irretocável.
Voltemos à nossa própria casa. 
Se o Rio é o que canta o coral ianque, posso dizer-lhes, mineira que sou, estar disposta a morrer no Rio. 
Primeiro, porque esse refrão é pra inglês ouvir. 
Segundo, porque o Rio nunca deixará de ser a mais bela capital do Novo Continente. E disputa, com Paris, tal excelência. Exibe, a olhos de ver, a beleza natural de sua baía e suas montanhas, das alturas dos Dois irmãos, ao alcance da vista, ao Corcovado e ao Cristo. Dali, em glissado vertiginoso, o olhar abarca o areal branco de Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra. Se o belo é a perfeição, os portugueses o descobriram para o mundo e para nós, seus herdeiros. 
Terceiro, não há, no país, população mais cordial, alegre e solidária que a carioca. E, tenho certeza, não só criou como pratica o "jeitinho brasileiro" de ser (que os mineiros me perdoem).
E há mais: conceberam, e realizam, cantando e dançando, a mais bela festa do mundo — hino multifário, como a banda, coral de celebração da Diferença,  do Plural de todos e da Euforia de viver. 
Saibam que não me serve de SOS o refrão made nowhere desse blablalá, nem, tampouco, o aviso das placas que se leem nas passagens de nível: OLHE  PARE  SIGA.
Depois de ver e admirar nossa baía,  extasiado à contemplação da  Guanabara (e registrou-o em livro), Stefan Zweig optaria por  morrer, com sua companheira, longe do Rio: parou, olhou, viu e seguiu para Petrópolis, fugindo de Hitler e do Nazismo...
Também fiz minha opção: não sigo senão a Paris, cidade-luz , por sua beleza arquitetônica e seu patrimônio histórico. Mas estarei de volta à nossa cidade maravilhosa. Sempre. 
Morrer? Quem há-de salvar-se? Se morreremos todos… Quem escolhe a data? Onde?
Os heróis da guerra civil espanhola e da Força Expedicionária Brasileira, composta de voluntários, os nossos “pracinhas”, responderam, ombro a ombro, em forma, à chamada geral. 
A Nossa América pôs-se em marcha, arma em punho, no combate contra o Eixo, em Monte Cassino e Monte  Castelo, nas Batalhas de Cassino e Castello, em defesa da Europa. 
Descansam, agora, em paz: em Pistóia. 
É isso aí.
Maria José de Queiroz
Paris, 23 de dezembro de 2013.
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Frédéric Rossif (1922, Montenegro, antiga Iugoslávia /1990, Paris). Diretor de filmes e documentários para a tela do cinema e televisão, colaborou, frequentemente, com o compositor Maurice Jarre. Depois de perder toda a família durante a Segunda Grande Guerra, emigra à Itália, estuda em Roma e engaja-se, em 1944, na Legião Estrangeira. Já em Paris, em 1945, passa a trabalhar no Club Saint-Germain e dá início à carreira  no cinema. Atua na Cinémathèque Française, organiza o festival de Vanguarda de Antibes (1949/50) e é contratado, em 1952, pela ORTF. Seu filme Mourir à Madrid (script a duas mãos, com a escritora Madeleine Chapsal) recebe o Prêmio Jean Vigo de 1963, tendo sido indicado, pela Academia, para o Prêmio destinado ao Documentário do ano. No cast  de Mourir à Madrid, incluem-se, entre outros, Suzanne Flon, Pierre Vaneck, Jean Vilar, John Gieguld etc. É de 1970, seu único filme não documentário, Aussi loin que l’amour, que teria Salvador Dalí entre seus atores. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

A hora de Jorge Luís Borges

Quem nos últimos anos esteve em Paris, em espírito ou em letra, provavelmente ouviu a pergunta insistente e curiosa: leu o último livro de Foucault? E que pensa de Les mots et les choses? Diários, folhetos, semanários, revistas abriram páginas e colunas para discutir e analisar um livro dos mais importantes publicados na França desde o advento do existencialismo. Como se inicia?  Com um texto de Borges. Nos Entretiens de 1966, realizados em Cerisy-la-Salle, para discutir Les Chemins Actuels de la critique, um nome veio constantemente às falas e apartes dos congressistas: o do argentino genial. Claro que também se fez menção a Barthes, a Althusser e a Bachelard... A verdade é que esperamos mais de quatro séculos para que nos aceitassem como latino-americanos à mesa do banquete da cultura e da civilização.

QUEIROZ, Maria José de. Presença da literatura hispano-americana. Belo Horizonte: Imprensa/Publicações, 1971. p. 58.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Eles queimaram livros

No outono de 1942, a Biblioteca Pública de Nova Iorque organizaria uma exposição dos livros proibidos e queimados na Alemanha. Patrocinada por Eleanor D. Roosevelt, Albert Einstein e mais personalidades políticas, escritores, cientistas e professores, a mostra foi inaugurada com discursos e protestos de repúdio ao auto-de-fé. Autores ingleses e americanos, cujas obras tinham sido proibidas pelos nazistas, deram seu testemunho. Sucedem-se exposições, reuniões, conferências e debates, sempre em torno da fúria incendiária do Terceiro Reich. Bandeiras a meio pau divulgam o luto das bibliotecas e das escolas do país; numa emissão especial, a cargo de Stephen Vincent Benet, a NBC chama a atenção do país para o crime nefando: They burned the books - Eles queimaram livros. Para registro ad perpetuam rei memoriam, editou-se uma brochura, para distribuição nas escolas, sob o título Ten years ago the nazis lighted the way of their own destruction - Há dez anos os nazistas iluminaram o caminho de sua própria destruição.
Mas a comemoração não estaria completa se não se ouvisse a voz do campeão da liberdade - o presidente dos Estados Unidos. Ao falar sobre a data abominável - 10 de maio de 1933 - Roosevelt declara:

"Sabemos todos que os livros se queimam. Mas sabemos ainda mais que os livros não podem ser destruídos pelo fogo. Os homens morrem mas os livros não morrem nunca. Nenhum homem e nenhuma violência podem extinguir a sua lembrança. Nenhum homem e nenhuma violência podem encerrar o pensamento, para sempre, num campo de concentração. Nenhum homem e nenhuma violência podem expulsar do mundo os livros que exprimem o eterno combate da humanidade contra a tirania. Nós sabemos que, nessa guerra, os livros são armas".

QUEIROZ, Maria José de. Os males da ausência ou A literatura do exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. p. 597.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

No fim do caminho estava Vila Rica

Nossa existência parecia em suspenso. O medo da virada do século não voltara a preocupar minha mãe. As angústias do regresso, intensas no início da viagem, já me haviam abandonado. O movimento da cavalgadura, a presença de gente estranha, a mudança de paisagem, a constante e sucessiva diferença de clima - tudo isso me descansava, fazendo-me esquecer que no fim do caminho estava Vila Rica. Nunca fui tão livre: livre do meu tempo, dos meus pensamentos e das minhas emoções. Abrasada às vezes de calor durante o dia, gelada de frio durante a noite, pouco me importavam as fadigas físicas. Fui quase feliz. Mais que isso: fui feliz.

QUEIROZ, Maria José. Joaquina, filha do Tiradentes. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. p. 124.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O prazer de comer e o prazer da mesa

O prazer de comer é a sensação atual e direta de uma necessidade que se satisfaz enquanto que o prazer da mesa é a sensação refletida que nasce das diversas circunstâncias de fatos, lugares, coisas de personagens que acompanham  a refeição. O prazer de comer nos é comum com os animais; depende da fome e daquilo que é necessário para satisfazê-la. O prazer da mesa é particular à espécie humana; supõe cuidados prévios na preparação da refeição, na escolha do local e na reunião dos convivas. Enquanto o prazer de comer  exige, senão a fome, pelo menos o apetite, o prazer da mesa é, no mais das vezes, independente tanto de um quanto de outro.

QUEIROZ, Maria José de. A comida e a cozinha: iniciação à arte de comer. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1988. p. 103

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Por uma carta gastronômica do continente

Esperamos que o bom exemplo de Luís da Câmara Cascudo, ao publicar a História da alimentação no Brasil; de Silva Mello, a Alimentação no Brasil; de Eduardo Frieiro, ao redigir o seu Feijão, angu e couve; de Guilherme Figueiredo, com o seu Comidas, meu santo!, e de Antônio Houaiss, a Magia da cozinha brasileira, frutifique nesta e em outras Américas para que se possa elaborar a Carta Gastronômica do continente. Pois é de supor-se que essa carta fornecerá revelações tão valiosas e tanto mais esclarecedoras sobre os fenômenos culturais americanos quanto a Carta Alcoólica reclamada por Germán Arciniegas. A atender aos dois reclamos, veríamos, bem delineados nas zonas açucareiras, os países da aguardente - o ron e a cachaça -, e, nos países do milho, a ocorrência simultânea da chicha e da tortilla. A presença do mescal e da tequila haveria de colorir o mapa do México, concorrendo com os pratos "ao chocolate", como, por exemplo, o mole poblano. A "branquinha" delimitaria as fronteiras do Brasil, onde pontifica a feijoada negra. O "amargo" - o mate - poria em perigo a hegemonia da vinha nas regiões do Sul, competindo nas grandes carneadas, prolongando o prazer do churrasco e da parrillada. Quando chegarmos a essa perfeição cartográfica, teremos também realizado o propósito estruturalista de Lévy-Strauss escrevendo a história americana dos hábitos à mesa.

QUEIROZ, Maria José de. A América sem nome. Rio de Janeiro: Agir, 1997. p. 34.