sábado, 12 de outubro de 2013

Dorotéia

Noites brancas, sem sossego,
manhã fria de Ouro Preto
Marília, noiva do vento.

O rico vestido bordado,
as liras apaixonadas,
as promessas... o noivo...
Palavras.

Nas ruas, o olhar avesso,
nas rótulas, o vago vozeio,
o riso, a família... Bem feito!

Primeiro a vergonha, o processo,
a dúvida, os versos.
O amor vence tudo,
ainda há esperança...
Dá-se um jeito.
Os dias passando, os meses,
cartas raras, o degredo.
À África? Quem sabe?
Coração maior do que o mundo...
Se amor existe, o mar é pouco...

Dá-se um jeito.
O silêncio.
Silêncio longo de anos,
o casamento, o lar... o dinheiro...
São estes os campos?
Talvez.
Na casa de muitos quartos,
corredores estreitos,
madrugadas prenhes de espantos.
A solidão, fiel conselheira,
desenreda velhos novelos,
corrige passados enganos.
Marília, noiva esquecida,
responde pelo seu nome.
Liras e versos falazes
esquecem-se entre duas fraldas,
no leve embalo do berço
com uma canção de ninar.
São estes os campos?
São estes.
Dorotéia os desencantou.

Belo Horizonte, 1973.

QUEIROZ, Maria José de. Exercício de fiandeira. Coimbra: Coimbra, 1974. p. 35-36.