sábado, 22 de agosto de 2015

Além da porta e do trinco

Além da porta e do trinco,
da chave e do ferrolho,
da parede e do muro,

além da última montanha,
da névoa e da bruma,
do arco-íris e do fumo,

além da máscara e do riso,
do gesto e da figura,
do perfil e do vulto,

além da voz e do grito,
do canto, da fala e do sussurro,

além de ti, de mim,
desse murmúrio e do olvido,

- o inferno ou o paraíso?

Belo Horizonte, 1972.


QUEIROZ, Maria José de. Exercício de fiandeira. Coimbra: Coimbra Editora, 1974. p. 87.

Que lhe posso eu dizer
















Que lhe posso eu dizer
que já não lhe tenha dito
em dicção de claro timbre
e verbo de grave sentido?

Consulte a memória
- sua fiel ancila.
Recupere vida e tempo,
convença-se:
eis-me a seu lado, cativa.
Milagre de eternidade,
permeada a seu ser,
estrela e mito.

Mas, se insiste,
confesso-lhe,
repito:
padeço funda saudade,
a lembrança me martiriza,
povoam-me incertezas,
dissipo-me entre amigos.

É tarde.
Escute-me:
de minha palavra
mal se ouve o eco
e a saudade já se faz grito...

Paris, 1970.

QUEIROZ, Maria José de. Exercício de fiandeira. Coimbra: Coimbra Editora, 1974. p. 72-73.